O emprego além da cota

Criada em 24 de julho de 1991, a Lei de Cotas, que prevê que empresas com mais de 100 funcionários tenham uma porcentagem de colaboradores com deficiência, tem sido um instrumento muito valioso de inserção no mercado de trabalho para as pessoas com deficiência.

Entretanto, quase três décadas depois, o que nós vemos no mercado é que ainda boa parte das empresas contrata apenas com o objetivo de cumprir a legislação e não de acordo com o perfil profissional do candidato.

Digo isso porque, apesar de ter entrado para o serviço público há mais de seis anos, das muitas tentativas que tive para início no mercado anteriores, a maioria das vagas que me eram oferecidas não condizia com meu perfil profissional. Aliás, quando eu dizia que tinha ensino superior, as próprias empresas já demonstravam desinteresse por mim.

Na maioria das vezes, esses cargos não exigiam tanta qualificação e muito menos eram direcionadas para minha área de atuação. Até mesmo o emprego que tenho como servidor público é de assistente em gestão e nada tem a ver com o jornalismo, em termos de produtividade. Na época, tive que pensar no lado financeiro e na necessidade de viver uma rotina de trabalho constante.

Mesmo depois desse tempo, percebo que, ao conversar com outras pessoas com deficiência que também tiveram oportunidade de frequentar um curso universitário, ainda  existe a dificuldade de entrar no mercado de trabalho da área que escolheram estudar.

Em paralelo,  noto ainda que o discurso de muitas empresas ainda tem como tônica a falta de candidatos com deficiência com a qualificação desejada.

Então pergunto, por que essa equação não bate?

Entendo que, para isso acontecer, todas as partes envolvidas precisam fazer concessões. As empresas têm de providenciar as adaptações necessárias para o empregado com deficiência desenvolver suas melhores habilidades. Algumas delas, como já disse no artigo sobre adaptações razoáveis, dependem mais da atitude de fazer do que algo que vá comprometer o orçamento.

Da parte da pessoa com deficiência, é necessário compreender a cultura da empresa, que não é obrigada a fazer nada do que não determinam as leis. Algumas vão ter um ambiente mais agradável, outras nem tanto, mas todas estão atrás de um nível de desempenho que lhe tragam lucros, sobretudo financeiros.

Acredito que, assim como para qualquer profissional, as pessoas com deficiência terão melhor desempenho no trabalho, se fizerem aquilo que gostam e se prepararam para fazer, pois vão saber compreender melhor os seus limites e explorar mais as habilidades.

Para isso também, é preciso que as lideranças das empresas estejam abertas a compreender esse cenário, assim poderão encontrar um colaborador atuante e não ver apenas a deficiência que ele carrega.

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