As notícias na internet brasileira são acessíveis?

Em um museu, um grupo com deficiência visual está com fones de ouvido, acompanhando a audiodescrição do quadro que está na frente delas. O objetivo da publicação desta imagem é exemplificar um modo de audiodescrição.

Desde que entrou em vigor em janeiro de 2016, a Lei Brasileira da Inclusão (LBI) obriga os sites hospedados ou com atuação no país a possuir conteúdo com acessibilidade. Entretanto, em tempos de um bombardeio de fake News nas redes sociais, seria a disponibilidade de conteúdo acessível na internet a pessoas com deficiência visual ou auditiva também uma notícia falsa? Ou seja, algo que não acontece.

De acordo com o último Censo, de 2010, existem cerca de 6,5 milhões de habitantes com deficiência visual e outros 2 milhões com deficiência auditiva no país, que possuem grande comprometimento sensorial. Estes públicos são os mais afetados com a falta de conteúdo acessível em qualquer meio de comunicação. Pois é pelos sentidos que todos recebem informações do ambiente ao seu redor.

Para Luciane Molina, que tem deficiência visual, o principal problema nos sites e nas redes sociais está na falta de audiodescrição das imagens, que são utilizadas para tornar o conteúdo mais atraente. Segundo ela, a ausência desse conteúdo acessível faz com que ela procure outra fonte de informação.

“Isso meio que expulsa a pessoa com deficiência visual dos sites que não possuem a audiodescrição das imagens. Eu acabo procurando outros sites que fornecem acessibilidade. Isso é muito mais trabalhoso, mas não deixo de consumir a informação que me interessa”, afirma Luciane, que é pedagoga e mora em Guaratinguetá (SP).

Desde que a internet foi disponibilizada para o uso das pessoas em geral, em meados dos anos 1990, é possível se produzir conteúdos com acessibilidade. No caso da audiodescrição, toda imagem publicada em um site possui um recurso onde deve ser inserida a descrição.

Ainda de acordo com Luciane, ela tem encontrado várias publicações de notícias que contém imagens de prints de computadores e celulares que não possuem audiodescrição, como, por exemplo, conversas de WhatsApp ou infográficos.

“Isso faz com que nós, pessoas com deficiência visual, não tenhamos acesso ao que está escrito nessas imagens”, completa Luciane.

Acessibilidade não faz parte dos estudos acadêmicos nos cursos de comunicação, diz especialista

A maioria dos professores dos cursos de comunicação desconhece o que é acessibilidade comunicativa. Essa é a conclusão que chegou o especialista Marco Bonito, que é doutor, pesquisador e professor na Unipampa, em São Borja (RS).

“Poucos professores de comunicação têm acesso a materiais sobre acessibilidade comunicativa. As pesquisas neste âmbito são muito recentes e a maioria deles não participa de seminários ou simpósios e não lê revistas científicas. Eles não estão preocupados com isso”, afirma.

Outro aspecto citado por Bonito é que poucos alunos com deficiência visual ou auditiva ingressam nas universidades. “Se nós tivéssemos mais pessoas transpondo essa barreira, o problema viria à tona e isso seria mais discutido e estudado”, comenta o especialista.

Ainda de acordo com Bonito, o problema não está no aspecto tecnológico imposto pela Lei Brasileira de Inclusão da pessoa com deficiência, está na precariedade da fiscalização e o governo não demonstra ter isso como prioridade. “A Abert (Associação Brasileira de Rádio e Televisão) briga na Justiça, desde 2003, para não ser obrigada a disponibilizar acessibilidade de conteúdo, com o argumento de ter um alto custo. Quando os meios de comunicação precisarem cumprir realmente a lei e fornecer conteúdo acessível, isso se tornará um caminho sem volta. Vejo esse movimento [da Abert] como uma questão de demarcação de poder.”

Ele completa o assunto citando exemplo de que no final do ano, perto do Dia Internacional da Pessoa com Deficiência, os jornalistas vão fazer várias reportagens sobre a falta de acessibilidade em praças e calçadas, mas dificilmente vão refletir sobre a ausência de acessibilidade nos conteúdos que produzem.

É possível as pequenas e médias empresas gerarem conteúdo com acessibilidade?

A maioria das pessoas pode pensar que fazer conteúdo com acessibilidade é algo caro e inviável, mas nem sempre é verdade. Existem aplicativos que acionam janela de Libras (Língua Brasileira de Sinais) e leitura de audiodescrição de imagens que são gratuitas.

Porém antes de se pensar nas ferramentas é preciso criar conteúdos que possam ser acessados por elas. Luciane Molina e Marco Bonito, além do editor do Reflexão Sobre Rodas, Luís Daniel, dão sugestões de como os meios de comunicação podem (e devem) produzir com acessibilidade.

Para o público com deficiência visual, a maior parte do conteúdo que está em texto pode ser lido pelos aplicativos de leitura de tela, entretanto, Luciane e Bonito esclarecem que o que está contido em uma imagem ou fotografia não pode ser acessado. Portanto, é fundamental fazer a audiodescrição delas de forma escrita.

Bonito explica que é necessário se contextualizar e descrever quem são as pessoas e o que elas significam no ambiente. Já Luciane reafirma que é preciso se incluir na audiodescrição possíveis textos presentes nas imagens, que tenham valor para se compreendê-la.

Luis Daniel recomenda que a audiodescrição nas redes sociais deve fazer parte do texto jornalístico ou acompanhado de alguma hashtag para auxiliar a pesquisa desse tipo de conteúdo na plataforma, seja no Facebook, Instagram ou Twitter.

Quando se trata do público com deficiência auditiva, no Youtube já é possível adicionar legendas do que é falado nos vídeos. A situação mais complexa é encontrar um intérprete de Libras para gerar o conteúdo para as pessoas que são alfabetizadas neste idioma, que é a segunda língua no país.

Mas, de acordo com Bonito, é possível se encontrar intérpretes de Libras pela internet e terceirizar o serviço e depois editar o vídeo.

O editor do Reflexão Sobre Rodas, que é especialista em gestão de conteúdo, recomenda que os conteúdos com acessibilidade, quando em vídeos, sejam acionados de maneira opcional, para que quem não tenha deficiências sensoriais não se incomode com uma possível poluição audiovisual.

Nota do editor: Desde o segundo semestre de 2017, o Reflexão Sobre Rodas busca trazer o conteúdo em audiodescrição das imagens que publica. A tradução em Libras infelizmente ainda não foi possível implementar, mas o blog está à procura de uma ferramenta que forneça esse tipo de conteúdo.

 

3 comentários sobre “As notícias na internet brasileira são acessíveis?

Deixe um comentário