O capacitismo ainda sobrevive

Uma pessoa com deficiência não precisa provar nada a ninguém, pois isso é capacitismo.
Uma pessoa com deficiência não precisa provar nada a ninguém, pois isso é capacitismo.

Quando eu era criança, sempre ouvia os adultos dizerem para mim ou para os meus pais: “O importante é que ele é inteligente!”, na tentativa de me requalificar por conta da minha deficiência. Muitas vezes se dirigiam a outras pessoas por acreditarem que eu não poderia entender e responder. Aí, eu resolvia fazer algo fora desse senso-comum, e aparecia alguém  para dizer: “Mas ele consegue fazer isso?”. Pois é, eu já tinha feito. Também nunca me perguntavam se eu tinha alguma namoradinha, ou no que eu queria trabalhar quando crescesse. Depois de um tempo, descobri que tudo isso tem um nome, chama-se capacitismo.

É o preconceito, ou até falta de conhecimento, discriminatório em relação às pessoas com deficiência. Sejam elas cadeirantes, cegas, surdas, ou com qualquer outra debilidade física, sensorial ou intelectual.

Assim, tentar dizer que todos têm alguma deficiência por apenas usar óculos ou por não conseguir ouvir uma coisa ou outra e relativizar essas situações, é o mesmo que dizer que nada é preciso ser feito para melhorar a qualidade de vida das pessoas com deficiência.

Você se lembra de quando era criança e sempre tinha alguém que, pela idade ou pela dificuldade de conseguir cumprir a tarefa de uma brincadeira, era considerado “café-com-leite“? Pois é, isso é apenas mais um exemplo de capacitismo.

Por conta disso, a maioria das pessoas com deficiência tende a se obrigar a provar que ela pode fazer isso ou aquilo. Isso também entra na lista capacitista. Aliás, ser dado como exemplo por simplesmente fazer atividades cotidianas ou esportivas é algo bastante comum que ainda encontramos por aí.

Para uma pessoa com deficiência ser reconhecida como integrante de uma sociedade, ela não tem que provar que é capaz de nada. Ela precisa sim de condições de estar presente nos mais diversos espaços públicos e particulares.

A Convenção Internacional dos Direitos das Pessoas com Deficiência e a Lei Brasileira de Inclusão são categóricas ao afirmarem que é o ambiente que deixa alguém com deficiência. Uma construção com escadas, um restaurante com mesas em X – pois uma cadeira de rodas não encaixa em uma dessas – ou sem cardápios em Braille dificultam e muito a presença das pessoas com deficiência por ali.

É possível dizer também que o capacitismo está no famoso “jeitinho brasileiro” . Quando alguém diz: “Ah, mas você vai sozinho? Não tem ninguém para te ajudar a subir a escada?”, eu respondo: “Até tem, mas elas não são obrigadas a me levarem no colo, muito menos a minha cadeira de rodas?” Se houvesse o mínimo de acessibilidade, minha capacidade não seria julgada.

Já disse isso algumas vezes, mas escolhi o jornalismo porque considerava uma profissão que me identificava e que eu poderia exercer sem muita dificuldade. Entretanto, ainda escuto muita gente enfatizar; “nossa, você fez faculdade?” E no meu pensamento vem uma série de emojis do WhatsApp como resposta.

Como transpor o capacitismo?

Obviamente que o capacitismo é uma tarefa árdua de se combater, pois requer uma mudança de paradigma social muito grande, sobretudo das pessoas que praticam involuntariamente ou por desconhecimento.

Para vencer o capacitismo é necessário compreender a origem das deficiências e que cada uma delas precisa de um trato específico. Desta forma, se descobre a melhor maneira de se relacionar com ela. Quanto mais cedo isso acontecer, melhor.

 

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